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BLOG DA QUINTA

VAMOS COMEÇAR

O Bosque e a Catedral

O Bosque e a Catedral



A criança começou a falar e pareceu-me uma contradição. Aquela infans - que significa sem palavra articulada-, cresceu ali, no momento de produzir sons que fizeram algum sentido. Estava num bosque, maravilhada pelo esplendor da natureza. Pela sua estatura mais próxima da relva, do chão, da terra – ela tocava-os com as mãos. E os bichos… ela falava com os bichos. Sorria. Consegui ver nos seus gestos e ouvir nos seus sons uma franca alegria.

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Lembro-me bem da terra nas mãos. Do prazer, sobretudo, de não me preocupar com a sujidade ou outras consequências de tocar no barro. Sinto saudades dessa liberdade de apenas fazer sem ter de antever os efeitos de atos específicos. O prazer do tempo presente, do momento do instante suspenso que, afinal, é mais ancorado no corpo. Agora, aqui, esta imagem parece-me um monumento, uma peça de museu antigo que apenas o verde renovado da natureza rompe.

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Aquele bosque era um templo, a nave imensa de uma catedral, mas aqui despida do poder da pedra das colunas: livre da forma arquitetónica de um só tempo da História; livre dos dogmas dos livros escolhidos para as leituras religiosas e dominicais. O sentir. É o sentir que sinto no boque que me remete para a metáfora da catedral. Mas sem o peso dos impérios do Homem com H grande. Sem a marca da obra dos seres humanos. Imensa. Verdejante. Revigorada. Indiferente ao meu olhar ou talvez não, na sua plena generosidade de apenas ser. De apenas estar ali, como cenário da minha experiência e contemplação. O bosque não impõe nenhuma visão do mundo. O bosque não reflete nenhuma opressão. Tal como os pedaços de terra por entre os dedos da minha mão, da mão da criança, antes e depois da linguagem, ele É.

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A criança era alegre e tinha toda a sabedoria do mundo na palma das mãos. Olhava e sentia o bosque na mesma proporção, fazendo confundir a sua ingénua desenvoltura de corpo a crescer com um domínio pleno da espiritualidade daquele lugar. Ela era o sentido daquela catedral, liberta da necessidade de deixar marcos e rastos de poder sobre o local.

Depois de crescida manteve sempre a mesma pureza no olhar, porém sentia-se muitas vezes tolhida ou condicionada pelo acumular de memórias, gestos e emoções. Procurava no boque aquela ingenuidade primordial, na emergência de sentir ou conhecer precisamente o contrário. Escolhia, sempre que lhe era possível, filtrar as paredes, as naves e formas da catedral em todos os gestos dos Homens com H grande. Era a busca do fundamental que a mantinha de pé. Era a vivência do frio do riacho que lhe renovava o sorriso. Não fosse aquele bosque, já se teria provavelmente perdido nas formas de outras catedrais.

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Afinal, tinha sido por causa das catedrais e de tudo o que elas significaram quando foram construídas que aquela adulta se tinha definhado. Constrangida ao longo da vida pelas convenções e mecanismos de identificação, ela tinha estado longe de si mesma, da sua desobediência essencial, da sua liberdade. A pedra da igreja, era como a sua sepultura, enquanto o bosque na natureza era a sua depuração. A dela, enquanto pessoa e ser vivo neste planeta. *** A criança aproximou-se do adulto e perguntou: - Estás triste? - Não, estou a pensar. - É que te vi aqui, mas não tocas na terra com as tuas mãos. Já tocaste a casa dos bichos e das flores do chão? É macia, quente, às vezes molhada. Também é por causa da chuva que as flores podem ser como são. Se não caísse água aqui… ora toca…estás a ver como é? - Sim. Disse a adulta, com a plena sensação daquele momento. - Ainda estás triste? - Não. Parece-me que não. - Olha, quando estiveres a pensar assim aqui no bosque, vem brincar com a terra com as tuas mãos. *** O médico já tinha ouvido vezes sem conta aquela história do sentimento de perda de si daquela mulher. E lembrou-lhe que a voz da sua criança interna era um bom guia para se reencontrar. Era um médico alternativo que duvidava da plena eficácia final dos tratamentos químicos e convencionais. “Esses saberes comparáveis a catedrais”, disse ele. “Siga a sua curiosidade infantil”, continuou. E ela, movida por uma centelha que a despertou, prosseguiu o seu caminho, agora com as mãos na terra e os bichos no olhar.

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